Sofá e pipoca: O poço

Roseane Mendes



 O Poço, um filme espanhol disponível na Netflix, gerou muitas discussões quando foi disponibilizado. Muita gente achou uma forte conexão entre ele e o momento em que vivemos. 
O Poço (El Hoyo) — Espanha, 2019
Direção: Galder Gaztelu-Urrutia
Roteiro: David Desola, Pedro Rivero
Elenco: Ivan Massagué, Zorion Eguileor, Antonia San Juan, Emilio Buale, Alexandra Masangkay, Zihara Llana, Mario Pardo, Algis Arlauskas, Txubio Fernández de Jáuregui, Eric Goode, Óscar Oliver, Chema Trujillo, Miriam Martín, Gorka Zufiaurre, Miriam K. Martxante
Duração: 94 min.
Gênero: Terror


Apesar de ser um filme de terror, não foram as cenas chocantes de horror que causaram burburinhos. Foi a rápida identificação entre o enredo e a nossa sociedade e as maneiras como nos posicionamos coletivamente. A discussão não é uma novidade, talvez a representação simbólica é que foi a inovação. O Poço não precisou se esforçar muito para fazer os espectadores se horrorizassem e sentissem em algumas cenas um chute no estômago. O filme é um terror que beira a realidade, o horror vai muito além das mortes e sangue derramado; é uma constante. 


O Poço representa a famosa "pirâmide social", nela a divisão de classes e castas são representadas pelos andares os quais não sabemos o número exato. Essa divisão é arbitrária porque ora uma personagem pode estar no 33º andar e acordar no mês seguinte no 9º, sem qualquer explicação compreensível. Mas, não é assim que as classes sociais se formam? Por que uma minoria detém riquezas quase infinita enquanto uma grande parcela da população tem tão pouco? Isso também não é de certa forma arbitrário? Uns nascem em berço de ouro enquanto outros numa manjedoura. O Poço é isso, uma arbitrariedade que condena a maioria.

No entanto, o filme também mostra um lado da humanidade extremamente desconfortável. O egoismo e a crueldade são expostos e não há maneira de contestar, porque fora da tela vimos reações muito semelhantes quando iniciou a pandemia. Talvez ao ler este texto esteja achando superficial, mas é que não quero dar nenhum spoiler. Porque se houver alguém aqui que ainda não tenha assistido, possa assistir e ter sua imersão preservada.

O Poço é o primeiro longa do diretor Galder Gaztelu-Urrutia e o sujeito entrou com o pé na porta. A obra é escrita por David Desola e Pedro Rivera e conta a trajetória de Goreng numa prisão vertical. O curioso é que ele vai parar ali por vontade próprio. A prisão funciona em níveis, as celas, onde em cada um deles se encontram dois prisioneiros. Há uma espécie de rodízio, o qual de mês em mês esses prisioneiros são mudados de nível e é aí que está o conflito. Na cozinha dessa prisão é feito um verdadeiro banquete, o suficiente para todos os prisioneiros e também é feito o prato preferido de cada um. Esse banquete é servido por meio de uma plataforma que desce e fica um determinado tempo em cada nível. Não é permitido estocar a comida. Ainda assim a comida só é suficiente para os primeiros níveis. Isso acontece porque as pessoas dos primeiros níveis comem de forma gananciosa e até cospem no que sobra. Essas sobras vão descendo até as demais celas, porém em cada cela os prisioneiros comem sem se importar  com os demais e eles sabem da existência dessas outras pessoas. Chega a um ponto em que já não há comida nenhuma para os níveis mais baixos e resta a eles o canibalismo como meio de sobrevivência. 

O mais chocante é que quando os sobreviventes dos níveis inferiores chega a um nível mais alto com comida, eles repetem os atos de seus antecessores. O criador dessa obra mostra a estratificação social por meio de uma simbologia bastante inteligente.Há presença de diversos signos e metáforas que fazem o espectador pensar por horas. E toda vez que voltamos a refletir sobre a obra novas descobertas são feitas. A forma como é exposto o comportamento humano diante do confinamento é crua e simples. É possível ver a sociedade contemporânea muito bem representada em cada arquétipo das personagens.  Por meio do horror, O Poço mostra como há uns poucos que conseguem pensar no coletivo, enquanto muitos só pensam em si mesmo ou pior; só espera a sua vez de ser cruel. Embora a simbologia do final não tenha ficado clara para a maioria e inclusive há quem questione a escolha, essa obra é daquelas que certamente se tornará um clássico e muitas teses e artigos serão criados a partir dela. 

Bom, espero ter conseguido despertar a curiosidade e interesse mesmo não falando muito sobre personagens específicas. Acho que nunca um filme do gênero de terror conseguiu transpor o susto e o medo e levar à reflexão.

Fiquem bem! Cuidem -se! Até breve!

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