Documentário para indignar e cortar o coração - Em nome de Deus

Roseane Mendes

Esse documentário é mais do que um documentário policial o qual você acompanha uma denúncia e o processo na justiça. É um soco no estômago. O programa Conversa com Bial em 2018 exibiu uma denúncia gravíssima de abusos sexuais cometidos pelo médium João de Deus. A partir daí começa uma investigação que mais tarde se torna uma série documental original Globoplay.

A série mostra 18 meses de investigação e pesquisa que aprofunda na história do médium  João de Deus. Ao assistir esse documentário o que mais choca é ver que os crimes cometidos pelo médium não estavam tão escondidos assim, o que ele teve foi muitos cúmplices e ainda tem. Ele teve apoio de um machismo estrutural e um fanatismo religioso. Ainda há comerciantes na cidade de Abadiânia, onde funcionava a casa espírita que ele atuava, que espera a sua soltura e o retorno de suas atividades. 

A primeira vítima a se encorajar e denunciar o abuso sofrido foi a coreógrafa holandesa Zahira Mous> Ela dá uma entrevista  no programa do Bial que neste dia está com uma configuração atípica, sem música e sem plateia, com a seriedade devida ela conta sua história. Por se tratar de um médium famoso internacionalmente aconteceu o de sempre, a moça foi atacada e desacreditada de muitas formas. Para isso usaram aquilo que o Brasil aprendeu fazer bem, muitas fake news com o nome da coreógrafa. Mas, quando Zahira tomou coragem, encorajou cerca de 300 mulheres a também denunciar. 

Para muitos as denúncias foi um banho de água fria, porque acreditavam fortemente em João Deus. É difícil quando a fé etá em jogo. Inclusive conheço um casal que garante que foi depois da cura espiritual do médium é que conseguiram engravidar. Foi um choque para eles.  Entre essas pessoas há muitas celebridades, mas a maioria preferiu não fazer nenhum tipo de pronunciamento com exceção da Xuxa. O depoimento dela acrescenta muito ao documentário porque ela fala das curas que presenciou e ainda acredita foram reais, mas admite se tratar de um monstro. A dualidade da declaração da Xuxa representa o sentimento de muitos. Ela não tem nenhuma dúvida de que João de Deus cometeu todos os crimes que lhes foram atribuído.

Na série documental vemos os depoimentos de sete mulheres de idades, regiões e classes social diferentes, todas vítimas dos abusos sexuais de João. As vítimas que aparecem são: uma advogada, uma atriz, uma fisioterapeuta, uma professora, a coreógrafa e a mais chocante de todas uma filha do médium. Como já disse foram quase 300 mulheres e o que chamou a atenção dos investigadores é que essas mulheres nunca se falaram, mas em seus depoimentos havia muita coisa em comum. Os atos e as falas se repetiam, ele tinha um modus operandi. 

No decorrer dos seis episódios da série ouvimos os depoimentos dessas sete vítimas são dados numa roda de conversa solidária, onde elas se olham e se apoiam. São mulheres que compartem a mesma dor. Também tem depoimentos de vítimas de outros crimes cometidos por João de Deus que não são abusos sexuais. A vítima mais antiga a denunciar, indica abusos cometidos a mais de 50 anos. Houve uma denúncia em 1980 feita por uma adolescente de 16 anos, mas a juíza entendeu que ela teve a oportunidade de grita e não o fez e isso foi suficiente para descaracterizar o ato criminoso.

João de Deus não era só um médium, era uma celebridade. Para vocês terem um ideia, ele foi entrevistado por Oprah Winfrey em Abadiânia. Era visitado por todo tipo de celebridades, inclusive grandes políticos nacionais e internacionais. A casa Dom Inácio Loyola recebia pessoas do mundo todo. Embora, sempre assegura-se que não cobrava por atendimento apenas pelos medicamentos; João de Deus acumulou uma grande fortuna. Ele detinha o poder da cidade.

Recomendo assistir ao documentário porque nele há muitas informações que não são encontradas na internet. Na verdade, acho até que a mídia foi bastante condescendente com João de Deus. É aterrorizante. E tem alguns depoimentos de amigos de João de Deus que nos faz embrulhar o estômago. Que homenzinhos de merda também!

Bom, vou parar por aqui porque este texto já está longo e teria que escrever um livro para narrar os detalhes apresentados no documentário.

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