A tal da felicidade...

Roseane Mendes


A felicidade é o que todos nós buscamos, ou pelo menos a maioria de nós. O que é felicidade? Essa pergunta pode ter muitas respostas, algumas fáceis de ser dadas e outras um pouco mais complexas. A verdade é que quando nos questionamos se somos felizes ou pensamos em que precisamos para ser felizes mais nos distanciamos desse estado. Quando estamos felizes não nos questionamos se realmente estamos, simplesmente vivenciamos esse estado. Para resumir, a busca pela felicidade nos distancia dela. Isso porque ao tentarmos definir a felicidade corremos risco de colocar nossos desejos como objetivo para ser feliz. Por isso que alguns filósofos dizem que refletir sobre a felicidade é uma empreitada de quem não é feliz. 

Atualmente a nossa felicidade é condicionada a muitos fatores externos e entre eles estão os meios científicos. Associamos o ser feliz a ter uma vida mais fácil e a ciência contemporânea nos promete essa facilitação. A ciência nos vendes formas e meios de ter mais tempo, cura em capsulas para nossa ansiedade e depressão. Vejam só, não preciso saber a causa porque já tenho como resolver as consequências. No entanto, todo esse desenvolvimento tecnológico e científico fez com que ficássemos mais estressados, mais preocupados, mais ansiosos e mais depressivos. Basta observarmos esse período de isolamento social, neste momento estamos sendo muito mais cobrados para sermos produtivos. Certamente você deve ter percebido cobranças do tipo: "Está se exercitando?", "Está comendo bem?", "Está lendo algum livro?", "Está fazendo algum curso online?", "Já viu a série X?", "Assistiu o filme Y?"...Temos a sensação de que há uma vigilância da produtividade nessa quarentena. As vezes acho que a quarentena veio com a promessa de dias mais longos. Somado a isso ainda temos o mercado associando a nossa felicidade a produtos, a nossa capacidade de consumo mede nossa potencialidade em ser felizes. 

Para o mercado, ser feliz é fazer aquela viagem dos sonhos, mas que as vezes nem é mesmo nosso sonho; nos disseram que é. Olha as propagandas de carro! Como as pessoas são livres e felizes. Que conquista não é mesmo? A felicidade na sociedade moderna está associada a sermos muito produtivos e a acumulação de bens. Soma-se a isso a ideia de que a felicidade é única e exclusivamente responsabilidade do indivíduo. Nesse momento, você deve estar me perguntando: "Mas, não é nossa responsabilidade?". Depende, se para ser feliz precisamos corresponder as expectativas do mercado; essa ideia é bastante cruel. Porque tira do Estado toda sua responsabilidade e responsabiliza o indivíduo por sua falta de acesso a esses bens materiais e culturais. Se não tenho é porque fiz escolhas ruins, se não tenho não sou feliz e a culpa é minha. Não alcancei porque não sou tão brilhante quanto meu amigo, meu primo, meu vizinho... E assim nos afundamos na infelicidade.

Existe uma corrente filosófica chamada estoicismo, a qual não vou aprofundar em sua origem, mas que basicamente diz o seguinte sobre essa busca da felicidade: 
  • Procure compreender quem é você no universo. O universo é muito maior que você e está além das suas vontades. Isso significa que estamos imersos em uma série de condições que nos foram dadas sem que nós as elegêssemos. 
  • Resignar-se em relação ao Universo. Há coisas as quais não são possíveis mudar e compreender e aceitar nos aproxima da felicidade. "Difícil!"
  • Ao entender a afirmação anterior, você compreenderá que a nossa liberdade não está em mudar as coisas as quais nós não podemos mudar. Esse princípio diz que a nossa liberdade está em desejar que as coisas sejam como são ou odiar que sejam como são. Portanto, ser feliz é não desejar mudar aquilo que não é possível e não se deixar sofrer influência do meio. Quer um exemplo simples? Não adianta desejar ter 1,70 se você tem 1,60. Isso não é mutável e esse desejo nada mais é que influência do meio.
  • Os estoicos dizem que nós devemos amar o destino. Isso significa que devemos usar a nossa realidade a nosso favor. Sabe o ditado: "Nadar contra a corrente"? Para os estoicos é a receita da infelicidade, nessa filosofia você deve usar a corrente para andar de barco. 
Ao compreender quem somos no universo, aceitar o que não podemos mudar, compreendemos que algumas insatisfações não nos pertencem; mas nos são impostas culturalmente e assim conseguimos resistir as críticas e as mágoas que nos são plantadas. Quando alguém critica o nosso corpo e isso nos afeta, o problema não está na crítica e sim na nossa incapacidade de aceitar quem somos e desejar que o outro nos aceite.

Já para os epicuristas, outra corrente filosófica, devemos compreender que:
  • A felicidade é sinônimo de prazer. Mais do que entender o conceito de felicidade, nos cabe sentir prazer. Prazer ao comer uma comida saborosa por exemplo. Isso quer dizer que a felicidade está nas sensações. 
  • Também devemos aprender a separar nossos desejos. Existem alguns desejos úteis que são naturais e necessários e existem alguns desejos que são inúteis porque não são necessários. Os desejos úteis devem ser atendidos porque nos são necessários, por exemplo tomar água. Temos o prazer de matar a sede e precisamos realizá-lo para nossa sobrevivência. O prazer em se alimentar também é útil e necessário. |Já os desejos inúteis como alguns desejos naturais e não necessário como beber um suco de uma marca específica, comer uma comida específica ou mesmo desejos não naturais e não necessários como ter dezenas de pares de sapatos, fazer uma viagem luxuosa; são desejos que nos foram criados. E surpreenda-se! Segundo essa vertente filosófica esses desejos que nos são criados quando atendidos não nos satisfazem porque não fazem parte de nós. Esses desejos não nos ensina, não nos muda. 
  • Portanto conhecer quais desejos existem em nós e saber quais são naturais e necessários pode ser a forma de nos aproximar da felicidade. Porque são esses desejos que nos deixam satisfeitos cotidianamente.
  • Outra "pílula" da felicidade é não se preocupar com a morte (Eita! Em tempos de pandemia!Que desafio!). Porque estar vivo é ausência da morte, e uma vez morto não sentiremos mais nada. Na morte não existe nem dor, nem tristeza. O que essa corrente está dizendo que a morte não faz mal nem para o vivo e nem para o morto. 
  • Não esperar que a felicidade venha dos deuses e nem seja produzida pelos deuses. Para o epicurismo a felicidade é consequência da nossas escolhas, portanto não devemos fazer escolhas extravagantes e/ou supérfluas. Devemos fazer escolha de ter boas amizades, comer saudável e simples, etc. É assim que nós impedimos que os outros criem em nós necessidades que não temos. 
Tem uma outra corrente filosófica que discute a felicidade e conversa com as outras duas já citada. Que é o cinismo. Esqueça seu senso comum dessa palavra. Falando bem resumidamente a origem da palavra cínico significa viver como um cão. Observe a vida de um cão. Ele não está preocupado com dramas, comidas sofisticadas, viagens internacionais. Ele quer comer, dormir e brincar com você. A felicidade de um cão é algo muito simples e tangível. Então o que diz a corrente do cinismo:
  •  Para ser feliz você deve ser indiferente as hierarquias sociais. Para essa corrente a felicidade mora onde o status social não está. Ao desejar ser alguém importante, economicamente privilegiada, você deseja atender uma demanda que é do outro, uma demanda imposta socialmente.
  • A felicidade parte de nós mesmo e se relaciona com o meio que vivemos. Ter tudo ou ter nada não é receita da felicidade. Não precisamos de muito para ser feliz, mas precisamos saber o que é nosso desejo e o que é um desejo gerado pela sociedade. Eu desejo um sapato novo ou a publicidade me convenceu de que desejo um sapato novo?
  • Não se preocupar com a opinião do outro e compreender o nosso lugar no mundo.
Essas são as muitas reflexões que deixo para vocês. Agradeço a você por ter chegado até aqui e que essa leitura acrescente algo.

Fique bem! Cuidem-se! Até breve!!!


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