Sofá e pipoca: Amores brutos (com spoiler)

Roseane Mendes

Amores Brutos (Amores Perros) – México, 2000
Direção: Alejandro González Iñarritu
Roteiro: Guillermo Arriaga
Elenco: Gael García Bernal, Vanessa Bauche, Marco Pérez, Goya Toledo, Álvaro Guerrero, Emilio Echevarría, Jorge Salinas, Rodrigo Murray, Adriana Barraza, Humberto Busto, Lourdes Echevarría, Rosa María Bianchi, José Sefami, Gustavo Sánchez Parra, Dunia Saldívar, Riccardo Dalmacci
Duração: 155 minutos



Amores brutos tem como enredo três histórias que se cruzam a partir de um acidente de carro, uma outra relação entre essas histórias é o amor dos protagonistas por seus cachorros. O título desse filme diz muito sobre ele, inclusive o título brasileiro.  Alejandro González Iñarritu estreia na direção de longas-metragens com o pé na porta, mostrando que veio para fazer história no cinema. Ao optar por cruzar três histórias de forma não linear, o diretor mexicano prova sua genialidade. As histórias são contadas de forma bruta, tão bruta que quase parecem amadoras. Assim são seus personagens, secos e brutos que quase beiram a imaturidade. No entanto, é essa característica que dá ao filme toda poesia nele contida. Amores brutos é o primeiro filme da chamada "trilogia da morte" ou "trilogia da perda" que inclui 21 Gramas (Já falei dele aqui) e Babel. A cena inicial já aponta todas as ligações entre as histórias e todas as angustias nelas presentes.

Na primeira história de Amores brutos estão Octavio (Gael Garcia Bernal) , Susana (Vanessa Bauche) e Ramiro (Marco Pérez). Octavio é apaixonado por sua cunhada, Susana, que sofre maus tratos de seu marido; Ramiro. Susana e Ramiro têm uma filha que de certa forma é negligenciada pelo pai, já que o dinheiro dele não é prioritariamente investido no bem estar dela. Octavio e Ramiro vivem na casa da mãe, juntamente com Susana e a filha. Ao se descobrir grávida novamente, Susana se mostra muito apreensiva em relação a reação de Ramiro e se abre com Octavio, esse lhe propõe que fujam juntos levando também a bebê. Susana diz ser uma loucura e questiona principalmente a falta de dinheiro para sobreviverem.Então, Octavio vê em seu rottweiler Cofi a solução para conseguir dinheiro, ele o coloca em rinhas sangrentas as quais o cão sempre sai vitorioso (Pausa para meu sofrimento em relação as rinhas). Susana apesar de ser agredida pelo marido continua o amando e acaba traindo a confiança de Octavio, fugindo com o Ramiro e levando o dinheiro do cunhado. Já nesse núcleo podemos perceber a dualidade do amor. Temos Octavio e seu fiel Cofi que apesar de amá-lo o expõe ao risco de morte eminente. O cão que apesar de doce e fiel ao seu dono é agressivo e sanguinário nas rinhas.Susana que é agredida constantemente pelo marido, mas continua o amando com devoção. Ramiro, um homem agressivo que espanca todos a sua volta; mas aparece na foto sorridente abraçado ao irmão. Todos os personagens desse núcleo traz a mesma contradição do cão Cofi. Todos amam e matam com a mesma intensidade. Octavio trava uma batalha mortal para ficar com Susana, e essa por sua vez o coloca em risco de morte para permanecer com o marido.

Temos uma segunda história  que traz Valeria (Goya Toledo) e Daniel (Álvaro Guerrero). Valéria é uma modelo de sucesso e Daniel é um homem casado que tem duas filhas. Valéria e Daniel vivem uma relação extra conjugal por um tempo, até que ele decide se divorciar e compra um apartamento de luxo para viver com sua nova companheira. Após Valéria se envolver em um acidente de automóvel a vida dos sonhos com Daniel começa a se desmoronar. A modelo fratura a perna e acaba sofrendo complicações que a levará a amputação, o que acabará com sua carreira. Um buraco se abre no meio da sala do apartamento de luxo. Esse buraco é uma simbologia do que é a vida de Valéria e Daniel, a briga entre eles se tornam uma constante. A mulher, modelo de beleza e divertida não existe mais. Ela tem um cachorrinho chamado Ritchie que um dia brincando com ela cai nesse buraco e não consegue sair e inicialmente eles não conseguem resgatá-lo. O cão passa alguns dias ali latindo por socorro enquanto Daniel sem querer destruir o piso do apartamento para salvá-lo tenta convencê-lo a se aproximar do buraco que caiu. É como o chamado de uma vida passada que não pode ser resgatada sem que se destrua o sonho conquistado.

A última história a se cruzar em Amores Brutos é de Chivo (Emilia Echevarría). Ele é um ex guerrilheiro que deixou sua família para lutar por um mundo melhor, mas depois de se frustrar em sua luta se torna um matador de aluguel. O mesmo homem que buscava um mundo melhor agora não tem nenhuma fé na humanidade. Ferido na alma por ter separado de sua família e principalmente pela falta que sente da filha, Chivo vive  na sujeira em uma espécie de submundo. No dia do acidente de carro entre Octavio e Valeria, Chivo encontra Cofi quase morto. O cão estava ferido a bala e ele decide adotá-lo. Graças aos cuidados do ex guerrilheiro o cão que parecia não ter chance, sobrevive e se torna mais um de seus companheiros de quatro patas. No entanto, um dia Chivo sai de casa e deixa Cofi e seus outros cinco cães  e quando volta o rottweiler havia matado a todos os outros. Enfurecido, Chivo aponta uma arma para Cofi, Mas, mesmo diante da dor e da fúria que sentia por seus outros cães; ele viu naquele matador, amor e devoção por ele. Ele tinha muito de Cofi e este tinha muito dele. Então, ali diante das chamas dos corpos de seus antigos companheiros; Chivo e Cofi seguem como aqueles que se apartaram de suas matilhas e que a volta é inviável. O matador de aluguel tinha mais um trabalho para realizar, executar um empresário a mando de seu irmão. Chivo toma banho e corta os cabelos e sua aparência se assemelha ao marido e pai que já foi. Seria possível a volta de Martin e a despedida de Chivo? Mas, ainda há um trabalho a ser realizado. O matador sequestra o empresário e pouco depois o seu irmão, o mandante do assassinato, e os coloca frente a frente. Antes de sair da casa, deixa diante dos irmãos uma pistola e a escolha de se amarem ou se odiarem com cães raivosos e competidores. Então pela porta, sai Martín em busca de sua filha e com um telefonema aquele homem violento desaparece e aparece um pai saudoso, sofrido e culpado.

Amores Brutos não tem final feliz. A dor e a transformação de seus personagens deixam marcas que não podem ser esquecidas. A vida mostrada neste filme é dura, desafiadora e implacável. Ser resiliente é a única opção possível para os personagens.

Comentários