quarta-feira, 9 de outubro de 2013

Meu cabelo é ruim?

Quarta-feira, dia de "causo"! Este é o segundo post da minha saga capilar e o assunto é o tal conceito do cabelo bom X cabelo ruim. "Vamo que vamo" porque a coisa é quente! Se preparem, pois o post vai ser grande. 

Como grande parte das brasileiras de cabelos crespos e cacheados, cresci com a ideia de que meu cabelo era ruim e eu tinha que alisá-lo. Desde criança, eu chorava porque não tinha cabelo grande, porque ele não balançava igual ao das Paquitas. Era um verdadeiro sofrimento. Minha mãe e minha avó faziam vários penteados bonitinhos em mim, mas eu não ficava contente, queria mesmo era o cabelo lisão. Nem comento as coisas que fazia para fingir que tinha o tal cabelão. 

Um pouco mais crescidinha comecei a passar vários produtos [a.k.a. alisantes. Wella, já te dei grana, viu!] e nada do cabelinho ficar igual ao das meninas da televisão. A grande pergunta era: por quê? E a resposta é simples. Porque meu cabelo era diferente e precisava de outros cuidados para ficar bonito. Só que descobri isso beem mais tarde. Enfim, para mim, o cabelo era ruim e pronto. Quantas crianças não passaram e passam pela mesma situação? Quantas meninas já não ouviram de colegas, vizinhos e até familiares que seus cabelos eram ruins? E as comparações? "Fulana tem o cabelo bom, o seu é ruim." Eu ouvia isso. 

Mas o que é esse tal de cabelo ruim? No documentário Good Hair, o Chris Rock [ele mesmo de Todo Mundo Odeio o Chris] pergunta a várias negras americanas o que elas chamam de cabelo bom. As respostas foram do tipo "um balanço com balanço, liso", "um cabelo que não precisa alisar". Resumindo, um cabelo mais parecido com o cabelo dos brancos.  Então, ele pergunta à Raven [aquela de "As Visões de Raven] o porquê das mulheres não assumirem os cabelos crespos e viverem reféns de alisamento e outras técnicas para modificar o cabelo e a resposta foi: "Para nos misturarmos, para não incomodarmos as pessoas." Não sei vocês, mas eu fiquei triste ao ouvir as respostas. O documentário trata da realidade americana, mas creio que também possa ser aplicado à nossa. Talvez, por causa da grande mistura, temos uma variedade maior de tipos de cabelo, mas infelizmente, o mesmo conceito de cabelo bom X cabelo ruim. Se tiverem um tempo vejam o documentário inteiro nesse link, vale a pena. 

Fico me perguntando, de onde saiu essa ideia de que cabelo crespo é ruim? Bom, saí fazendo umas pesquisas para chegar a uma conclusão. Primeiro, se procurarmos por qualquer definição de cabelo, como essa definição dada pelo Delta Larousse: "Cabelo constitui uma das bases tradicionais para a classificação das raças humanas, devido ao seu crescimento, sua forma e sua aparência.", percebemos que o conceito biológico está sempre ligado à interpretação cultural. Então quando julgamos um cabelo como ruim é quase como se estivéssemos avaliando um determinado tipo de pessoa como ruim. Um exemplo desse tipo de avaliação, foi a escravidão dos negros no Brasil, na qual a cultura e os valores dos negros foram desprezados pelos colonizadores. Para vocês terem uma ideia, homens e mulheres só começaram a alisar os cabelos, na década de 40, por acreditarem que assim seria mais fácil o ingresso no mercado de trabalho, ou seja, queriam se misturar. 

Confesso que travei essa luta com meu cabelo, por anos, porque também queria me misturar, também queria fazer parte. Por esse motivo, não critico ninguém que queira ter os cabelos lisos, afinal, são bonitos mesmo e a pessoa tem que ter esse direito de escolher usar os cabelos como quiser. E é por poder fazer essa escolha que resolvi contar tudo isso, já que os cabelos cacheados ou crespos, que também são bonitos, têm sido vistos, ao longo dos anos, como algo feio e marginalizado. Eles também podem ser uma opção. Também são lindos e fáceis de cuidar, mas acho que isso é assunto para outro post. 

Por hoje é isso, galera. Quarta-feira que vem, teremos mais um capítulo da novela "Deixei de ser lisa, hoje sou Beyoncé!"

Beijos

Tati

P.S. Abaixo, o trailler do Good Hair.



Fontes: Dicionário Delta Larousse
            MALACHIAS, Rosângela. Cabelo bom. Cabelo ruim. Coleção Percepções da diferença negros e               brancos na escola. Mistério da Educação, 2005.


2 comentários:

  1. Muito bom, Tati. Acaba que por imposições sociais temos uma visão distorcia de nosso cabelo, corpo, do que é um emprego de sucesso, ou mesmo, do que é felicidade. As pessoas acabam fazendo escolha pensando no que os outros irão pensar e não necessariamente no seria o melhor para ela ou no que ela quer. Linda a sua saga! Aguardando os próximos post!

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    1. Obrigada! Verdade, Kele. Ficamos meio presos na visão dos outros e esquecemos do que nos faz feliz.

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